O nosso olhar – diário visual da pandemia
O Nosso Olhar, diário visual da pandemia, foi desenvolvido entre março e outubro de 2020, durante o período mais intenso de isolamento imposto pela pandemia de Covid 19. Seis anos depois, disponibilizo neste site todo o material gerado ao longo desse processo como um gesto de memória e de respeito.
Durante aquele tempo, muitas pessoas perderam familiares, amigos e referências, atravessando o isolamento carregando lutos silenciosos. Este projeto não apaga essas ausências, mas testemunha um momento em que, mesmo separados, conseguimos estender a mão uns aos outros. Um tempo em que a solidariedade encontrou espaço nas imagens, nas palavras, no cuidado coletivo e no uso construtivo das redes.
O início
O nosso olhar – diário visual da pandemia, é um projeto colaborativo criado em 2020, durante o período de isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19. Desenvolvido ao longo de quase sete meses, o projeto reuniu pessoas em torno da criação e do compartilhamento de imagens como forma de atravessar o isolamento, exercitar a criatividade e manter vínculos em um momento de ruptura coletiva.
Mais do que um registro do período, o projeto se constituiu como um espaço de acolhimento, escuta e presença, onde a fotografia funcionou como linguagem comum e ferramenta de cuidado. Seis anos depois, o conjunto do material produzido revela a potência de uma experiência coletiva que marcou profundamente seus participantes e permanece como arquivo sensível daquele tempo.
O projeto
O projeto O Nosso Olhar, diário visual da pandemia, iniciou em março de 2020, a partir da criação de um grupo privado no Facebook e de um convite feito a partir da minha lista de amigos. A proposta surgiu após os primeiros 14 dias de isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, como uma tentativa de criar e compartilhar imagens a partir da experiência de reclusão vivida por cada participante.
A ideia central era registrar sensações, medos, angústias, alegrias e descobertas desta nova forma de viver, aproveitando o isolamento para exercitar a criatividade e redescobrir os próprios espaços. Não havia critérios estéticos, julgamentos ou limites diários para a produção. Todas as imagens eram automaticamente aprovadas. Passávamos a nos acompanhar por meio da fotografia e do olhar de cada um.
Vídeo postado no dia 20/07/2020 em homenagem ao Dia do Amigo.
Crescimento e reorganização
A proposta foi recebida de forma muito intensa. Em apenas sete dias, o grupo já contava com mais de mil participantes e quase duas mil imagens publicadas. Esse volume tornou inviável o acompanhamento coletivo das postagens, o que levou à necessidade de reorganizar o funcionamento do projeto.
Foi então proposto que cada participante sugerisse uma única palavra que traduzisse o sentimento em relação à pandemia e ao momento vivido. A partir de mais de setecentas palavras enviadas, foi realizada uma seleção que resultou em trezentas e cinquenta e duas palavras. Semanalmente, eram realizadas enquetes com três palavras escolhidas a partir dessas sugestões, e as duas mais votadas se tornavam os temas para a criação das imagens da semana.
Metodologia e funcionamento
Com essa reorganização, novas regras foram estabelecidas. Cada participante poderia postar apenas uma imagem por semana, o que trouxe mais cuidado ao processo de criação e reflexão sobre o que estava sendo produzido. As imagens passaram a ser organizadas em álbuns específicos para cada palavra trabalhada.
O grupo permaneceu privado e foi criada também uma conta no Instagram, igualmente privada, para reunir imagens extras produzidas a partir de hashtags específicas do projeto. Esse formato permitiu maior organização, leitura e troca entre os participantes, além de evidenciar a multiplicidade de olhares e interpretações individuais.
Ao longo do projeto, foram trabalhadas vinte e cinco palavras, resultando em um total de cinco mil e vinte e oito imagens produzidas coletivamente.
As palavras trabalhadas
Foram propostas e desenvolvidas as seguintes palavras, com o respectivo número de imagens geradas:
Encontro, 390 imagens
Brincar, 250 imagens
Luz, 341 imagens
Amor, 223 imagens
Silêncio, 255 imagens
Vazio, 230 imagens
Delicadeza, 272 imagens
Cozinha, 239 imagens
Meditação, 196 imagens
Céu, 257 imagens
Dançar, 150 imagens
Coração, 186 imagens
Tempo, 214 imagens
Caos, 174 imagens
Essencial, 189 imagens
Saudade, 147 imagens
Fé, 165 imagens
Medo, 145 imagens
Poesia, 173 imagens
Paz, 149 imagens
Companheirismo, 168 imagens
Sonho, 167 imagens
Infância, 151 imagens
Esperança, 91 imagens
Recomeço, 106 imagens
Vídeo postado em 06/09/2020, com as duas últimas palavras dos desafios semanais: RECOMEÇO e ESPERANÇA.
Desafios e publicações
Como forma de estímulo adicional, foram propostos desafios extras ao longo do projeto. Datas comemorativas que se anunciavam especialmente solitárias em 2020 receberam atenção específica. Foram criadas revistas on-line a partir das imagens produzidas para o Dia das Mães e o Dia dos Pais, além de desafios dedicados ao Autorretrato incentivando os participantes a resgatar suas próprias infâncias por meio da imagem.
Esses desafios resultaram em publicações digitais, disponibilizadas ao grupo por meio da plataforma Issuu, ampliando ainda mais o senso de pertencimento e troca. Hoje não se encontra mais disponível.
Formação e partilha
Durante o projeto, ofereci também tutoriais gratuitos sobre o aplicativo Snapseed, editor de imagens para smartphones. Foram publicados oito tutoriais em vídeo no meu canal no YouTube, apresentando possibilidades de edição e incentivando o aprendizado coletivo. Para muitos participantes, esse foi o primeiro contato com ferramentas de edição de imagem.
Pesquisa e escuta
A etapa final do projeto incluiu a realização de uma pesquisa on-line, com o objetivo de conhecer melhor o perfil das pessoas envolvidas e compreender o impacto da experiência. Essa escuta confirmou a importância do projeto como espaço de acolhimento, convivência e descoberta da fotografia como forma de expressão durante o isolamento.
Encerramento e continuidade
O projeto foi encerrado em 12 de outubro de 2020 com a publicação da revista on-line Eu Criança. Ao longo de quase sete meses, contou com a participação ativa de aproximadamente duzentas pessoas, em um grupo que chegou a reunir dois mil e seiscentos membros.
Os depoimentos recebidos posteriormente, por e-mail e telefone, reforçaram o desejo coletivo de ver as imagens reunidas em publicações digitais e em um livro impresso.
Um ano depois
Vídeo feito para convidar os participantes, um ano depois da pandemia, a refletirem sobre o que mudou na vida em função do isolamento. Seria criado uma pasta chamada INSPIRAÇÕES, onde todos poderiam compartilhar a sua percepção através de texto, foto, desenho, vídeos.
O projeto foi indicado em duas categorias do XIV Prêmio Açorianos de Arte Plásticas da Prefeitura de Porto Alegre: Destaque Ações Virtuais em Tempos de Pandemia e Destaque Ações de Difusão e Inovação | Independente.
Matéria de Ticiano Osório no Jornal Zero Hora em 13 de abril de 2020: A imagem da morte ronda nossos pensamentos. Devemos criar e ampliar espaços de vida.
Cronologia do projeto
31 de março de 2020, criação do grupo privado no Facebook
3 de abril de 2020, vídeo de apresentação do projeto
6 de abril de 2020, postagem com as palavras e explicação do novo funcionamento
7 de abril de 2020, criação do Instagram privado do projeto
8 de abril de 2020, entrevista na Rádio FM Cultura
13 de abril de 2020, início das enquetes para escolha das palavras
13 de abril de 2020, matéria no jornal Zero Hora
Abril a outubro de 2020, encontros semanais em vídeo, tutoriais, desafios e publicações
3 de julho de 2020, publicação da revista Mãe
8 de agosto de 2020, publicação da revista Pai
8 de setembro de 2020, lançamento da revista Autorretrato
12 de outubro de 2020, publicação da revista Eu Criança e encerramento do projeto






































