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Foi durante o desenho do telefone antigo que o número apareceu inteiro, como se tivesse ficado guardado em algum lugar da memória durante décadas.

Fazer uma ligação era um pequeno ritual. Retirar o fone do gancho. Esperar o sinal. Enfiar o dedo no furo correspondente. Empurrar o disco até o final. O telefone devolvia lentamente cada número antes que o próximo pudesse ser discado. Ninguém tinha pressa porque não existia outro jeito. Era preciso esperar. Esperar a ligação completar. Esperar alguém atender.

Havia também os trotes completamente infantis. Hoje a lembrança provocaria mais constrangimento do que orgulho, mas continuava fazendo parte daquela infância.

A lista telefônica organizava as pessoas pelo sobrenome. Ali estavam o endereço, o telefone. A cidade inteira cabia dentro de algumas centenas de páginas.

Então vieram a pequena mesa de mármore, apoiada sobre pés de madeira, onde o telefone ficava. O grande sofá, que a mãe mandara forrar com um tecido marrom claro com detalhes em cetim, fazia conjunto com duas poltronas iguais e uma mesa de centro de tampo também em mármore. O lustre pendia do pé direito altíssimo da sala, de forro inteiramente revestido em madeira. O tapete azul escuro. A cadeira do pai, sempre no mesmo lugar. Na prateleira, o aparelho de som três em um, alguns livros e o quadro de formatura de um dos irmãos.

Às vezes, basta desenhar um objeto para que uma casa inteira volte a existir.

Vieram também as brincadeiras. As tardes na rua. O esconde,esconde. As campainhas tocadas antes da fuga. Os mascarados na época de Carnaval, que apareciam de repente nas ruas e desapareciam antes que alguém descobrisse quem eram.

Foi por isso que desenhou aquele telefone. Não por nostalgia. Mas porque alguns objetos não guardam apenas uma função. Guardam um ritmo.

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Talvez esse tenha sido mesmo o número do telefone da casa. Talvez não. A memória também inventa. Mas foi esse número que abriu a porta. E, às vezes, isso basta.

Desenho 308 | 10.07.2026