Domingo de faxina
Era o terceiro ou quarto dia de chuva. Frio. Umidade. A casa já começava a carregar aquele cansaço que o inverno espalha pelos cantos. O domingo amanheceu ainda cinzento, mas prometia abrir. Levou a cachorra para passear e, quando voltou, o céu já deixava aparecer alguns pedaços de azul. Bastou isso.
Decidiu que era dia de faxina.
Nunca viu a faxina como um trabalho pesado. Pelo contrário. Havia algum prazer em empilhar as cadeiras sobre o sofá, arrumar a cozinha, lavar o banheiro, colocar roupa na máquina e abrir todas as janelas para que o vento atravessasse a casa inteira.
Gostava especialmente do cheiro do pano úmido misturado ao produto de limpeza. O piso brilhava e a casa respirava outra vez.
A cachorra acompanhava tudo com uma paciência resignada. As bolinhas desapareciam para dentro da cama dela. As cadeiras invadiam o sofá. O caminho habitual deixava de existir. Restava apenas observá-lo daquele pequeno trono improvisado, com uma expressão entre a curiosidade e uma discreta reprovação, como quem perguntava em silêncio se toda aquela confusão era realmente necessária.
Às vezes ela desistia da espera e vinha atrás dele, tentando morder a vassoura ou o pano de chão. Talvez gostasse também daquele cheiro bom. Ou talvez só quisesse que a casa voltasse logo ao normal.
Uma ou duas horas depois, tudo terminava sempre do mesmo jeito. O balde era guardado. As cadeiras voltavam ao chão. As janelas permaneciam abertas por mais um tempo. Então ele passava um café.
A cachorra parecia conhecer esse ritual tanto quanto ele. Era o sinal de que a faxina tinha acabado e a casa podia voltar a ser casa.
Gostava dessa sensação de começar a semana com tudo em ordem. Talvez a chuva voltasse. A umidade também. Mas havia algo profundamente reconfortante em dedicar parte de um domingo a cuidar do lugar onde a vida acontece.
Depois era só fechar as janelas, deixar a cortina filtrar a luz da tarde e sentar no sofá ao lado da cachorra.
A casa estava limpa e isso, às vezes, era uma forma silenciosa de colocar a vida em ordem também.


