Ele vestia o inverno sem qualquer preocupação com elegância. Uma camisa xadrez, dessas já amaciadas pelo tempo e pelas muitas lavagens, caía solta sobre uma calça de abrigo, escolhida menos pela aparência do que pela capacidade de guardar o calor. No pescoço, um cachecol de lã azul até esconder metade do rosto, deixando à mostra apenas os olhos e os óculos, como se o frio tivesse obrigado o corpo a recolher tudo o que podia.
Nos pés, a combinação definitiva da rendição: meias enfiadas dentro de um velho chinelo de dedo. Um encontro improvável que jamais pisaria numa calçada movimentada, mas que, entre as paredes de casa, fazia todo sentido. Ali não havia preocupação em combinar cores, tecidos ou estilos. Cada peça parecia ter sido convocada apenas por uma razão: resistir à temperatura.
Era uma roupa construída aos poucos. Primeiro a calça. Depois a camisa. O cachecol. As meias. Por fim, o chinelo. Não havia moda ali. Havia estratégia. Cada tecido acrescentava alguns graus de conforto contra o frio.
Vista de longe, a roupa parecia um acordo silencioso entre o inverno e quem já desistira de enfrentá-lo com vaidade. Não tentava parecer bonita. Tentava apenas cumprir sua tarefa com honestidade: manter o calor dentro do corpo e deixar o frio do lado de fora.
No sofá, a cachorrinha já o esperava para completar o ritual da noite. Cobertor, uma taça de vinho e, poucos minutos depois, ela desapareceria debaixo da manta, transformando-se numa pequena presença quente encostada às suas pernas. Aos poucos, talvez ele largasse o cachecol. Depois o abrigo. Quem sabe as meias.
A cachorrinha, não. Permaneceria encolhida sobre o sofá, redonda como uma pequena bola de pelos negros. Talvez um dia ele aprendesse o segredo com ela.
O inverno nunca foi uma estação de vaidades. Sempre foi uma estação de abrigos.


