Encontrei esse menino ontem à noite
Ontem, enquanto acontecia o jogo do Brasil, eu resolvi fazer uma coisa que vinha adiando ha anos: limpar meu computador. Apaguei arquivos, organizei pastas, revisei programas esquecidos. No meio desse processo, encontrei uma caixa que guardava uma parte importante da minha história: negativos e slides acumulados ao longo de décadas.
Quando comecei a fotografar, eu revelava filmes em casa. Tinha laboratório preto e branco, ampliador, químicos, contato. A fotografia exigia tempo, espera e atenção. Muitas dessas imagens ficaram guardadas desde então. O scanner de negativos estava parado há anos.
Mas eu havia guardado o CD original, o número de série e toda a documentação. Depois de algumas horas tentando fazer tudo funcionar novamente, consegui instalar o software e ligar o equipamento.
E então aconteceu algo bonito. A tecnologia não criou nenhuma dessas fotografias. Não substituiu o olhar de quem estava atrás da câmera. Não substituiu a experiência vivida.
Mas ajudou a reencontrá-las.
Na tela apareceu a imagem de um menino em um parque. Eu mesmo, muitos anos atrás.
Olhei para aquela fotografia e pensei em tudo o que aconteceu desde então.
Nos lugares por onde passei.
Nas imagens que produzi.
Nas pessoas que encontrei.
Nos recomeços.
Talvez a tecnologia seja isso quando usada da melhor maneira: não substituir o humano, mas ampliar nossa capacidade de preservar, organizar e reencontrar aquilo que importa.
Agora tenho diante de mim centenas de negativos e slides esperando para serem vistos novamente.
Não sei exatamente o que vou encontrar.
Mas gosto da ideia de que, enquanto descubro novos caminhos no desenho e lanço um livro sobre a Chica, também possa revisitar o fotógrafo que fui e o menino que um dia começou tudo isso.
Às vezes o futuro aparece justamente quando abrimos uma caixa do passado.


