Tristicidade
cartografias do abandono e da (in)visibilidade
Tristicidade nasceu quando percebi que já não podia olhar para Porto Alegre apenas pelas lentes do Coisas do Cotidiano. Enquanto eu seguia registrando a beleza, o afeto e o encantamento da cidade, as ruas começaram a revelar outra face: a do abandono, da pobreza, da indiferença.
Não queria misturar os dois olhares, mas também não podia fingir que não via. Foi então que inventei a palavra Tristicidade – uma fusão de tristeza e cidade — e criei um espaço para acolher essas imagens que doem, mas que precisam existir.
O projeto começou como uma conta no Instagram, @tristicidade, que não segue ninguém. É um arquivo visual, um depósito de testemunhos, onde reúno fotografias daquilo que preferimos ignorar. Convidei também o público a participar: quem fotografasse sua própria cidade, em qualquer lugar do mundo, podia usar a hashtag #tristicidade, e eu compartilhava essas imagens, formando uma rede de olhares atentos ao que se esconde no cotidiano.
O que mais me chamava a atenção era o contraste entre o vazio e o excesso. Tantas portas fechadas com placas de aluga-se e, logo à frente, pessoas dormindo na calçada, procurando abrigo onde antes havia movimento. As latas de lixo se tornaram abrigo e sustento; corpos curvados sobre o descarte, em busca do que restou. E os monumentos, cobertos por pichações, pareciam gritar outra narrativa: a de uma cidade ferida, esquecida, mas ainda viva.
O Tristicidade é, antes de tudo, um mapeamento sensível daquilo que está diante de nós, mas que o olhar apressado insiste em não ver. Porque, por mais que tentemos desviar, a cidade continua nos pedindo para ser vista e reconhecida em sua dor.
Algumas imagens do projeto participaram da exposição coletiva INSULARES com curadoria de Ana Zavadil e curadoria assistente de Letícia Lau. A exposição ocorreu entre março e junho de 2018, no MAC-RS, Casa de Cultura Mario Quintana.
O projeto segue no instagram @tristicidade


























