Filhos de Deus
08.02.2026

Hoje de manhã cedo, um domingo comum em que o bairro ainda dorme, eu passeava com a Chica pelo caminho de sempre. Ruas vazias, silêncio, aquele ritmo matinal que acalma.

Na volta, ao passar em frente à igreja, vi um morador de rua com uma cadeira e um pedaço de papelão. Parecia estar se retirando, talvez depois de alguma conversa com o segurança. Nesse momento, o padre apareceu na porta da igreja.

O homem olhou para ele e disse:”Sou filho de Deus, padre. Tá tudo bem, né?”
O padre perguntou se ele era batizado.
O homem disse que não. Então o padre afirmou que, para ser filho de Deus, ele precisava se batizar.
O homem respondeu:”Não. Eu sou sim.”

Segui caminhando com a Chica, mas ainda pude ouvir quando ele saiu pela rua levando a cadeira e o papelão, falando alto, como quem precisa reafirmar algo essencial: “Todo mundo é filho de Deus. Não precisa se batizar pra ser filho de Deus. Aquela cachorra ali é filha de Deus. Aquele senhor é filho de Deus. Que padre é esse? Que igreja é essa? Eu sou filho de Deus.”

Eu estava poucos metros à frente dele. Virei o corpo e fiz um sinal afirmativo com a cabeça, como quem diz: sim, tu é. Ele seguiu caminhando, repetindo, quase como uma oração própria, que todo mundo é filho de Deus.

Cheguei em casa triste. Pensei naquela igreja por onde passo todos os dias. No sino que toca de manhã e no final da tarde. Na sensação boa que ele sempre me trouxe, lembrança da infância, de quando eu morava no interior.

Hoje, aquele padre perdeu muitos pontos para mim. Mesmo que dentro de um rito ou de uma crença católica exista essa ideia, dizer a um morador de rua que ele precisa se batizar para ser filho de Deus é uma violência absurda. Não é cuidado. É exclusão.

Talvez, nesse domingo silencioso, ele fosse mais filho de Deus do que o próprio padre parado na porta da igreja.

Esta imagem foi feita em 2017, dentro do projeto Coisas do Cotidiano. O nome da fotografia é Santasombra.