Desenhar é permanecer

Desenhar é permanecer

Desenho 260 / 25.05.2026

São 14 meses desenhando diariamente. Eu sempre falei que a fotografia era mais fácil para mim. Bastava escolher uma cena, fazer um enquadramento e decidir o que ficava dentro da imagem. O desenho parecia outra coisa, mais difícil, mais íntimo.

Mas depois de 260 desenhos comecei a entender algo importante: a fotografia registra, no desenho existe a escolha. É no desenho que eu realmente deixo apenas o que importa.

Esse desenho tem um significado diferente para mim porque fala de afeto, cuidado, troca e presença. Uma cena comum. Uma mesa. Um livro. Uma planta chamada Janis. A Chica observando tudo. Ela não estava na fotografia, eu escolhi inserí-la. Não existe protagonista. 

Talvez o protagonista seja o olhar.

Enquanto desenhava, pensei muito em Las Meninas, de Velásquez, quadro que vi quando tinha 21 anos, na Espanha. Até hoje lembro do impacto que senti diante daquela pintura sem entender exatamente o motivo. Eu sabia muito pouco sobre arte naquela época, mas alguma coisa tinha acontecido comigo naquela sala do museu. 

Com o tempo fui entendendo que aquele quadro cria um jogo de perguntas que nunca termina:
quem olha quem?
quem participa da cena?
quem está fora?
quem constrói a imagem?

Quarenta anos depois, percebo que esse desenho conversa silenciosamente com aquele jovem que entrou no museu sem saber explicar o que sentia.

A fotografia segue sendo o momento do registro. Existe um frase na música “Cupim de ferro” do Lenine que diz: “o olho finaliza, a lente só revela”.

Hoje, quando fotografo, já enxergo o desenho pronto. Mas é no gesto do desenho que a escolha realmente acontece. É ali que retiro os excessos e deixo apenas o que importa. É ali que tudo enfim se revela e permanece.