Extraordinário
28.12.2024

(Dedico esse texto ao meu amigo Marcello Vitorino)

Foi logo de manhã que viu a frase de Hilda Hilst no facebook do amigo: “Os sentimentos vastos não têm nome”. Concordou prontamente. Andava sentindo emoções que não conseguia definir. E eram muitas. E vastas. Era uma quinta-feira com cara de segunda e parecia até já ser o novo ano antecipado. Talvez pelo sol brilhante, o céu azul intenso e limpo, a brisa leve e o calor. E junto com esse cenário, a presença ainda mais forte daqueles sentimentos sem nome que o acompanhavam.

Foi um dia bastante agitado. A correria natural que sempre antecede a virada do calendário e um pouco de ansiedade e esperança pelos próximos 365 dias que logo chegariam. Novinhos. Sem uso. Prontos para escrever uma nova história, quem sabe definir sentimentos.

Saiu para passear com a cachorrinha no ritual que tanto amava. Esse sim tinha nome: alegria. O animalzinho fazia o maior sucesso pela vizinhança e ele adorava ver a simpatia dela com todas as pessoas e as trocas e elogios que sempre aconteciam. Ele ficava todo convencido. Era a cachorrinha mais linda do mundo. Um cachorro é a certeza de amor em doses fartas.

A imagem que viu logo em seguida o acertou em cheio. Duas senhoras sentadas em um banco, emolduradas pelas árvores muito verdes. A sombra das árvores era o convite perfeito para uma longa conversa. Certamente eram amigas de muito tempo, ou vizinhas, parentes, quem sabe namoradas? Que lindo seria. O cachorro delas descansava quieto no chão, preso pela coleira. A luz era perfeita. Tudo estava no seu devido lugar. E novamente ele sentiu aquele sentimento que chega sem avisar e fica.

Lembrou da frase de Hilda Hilst e dessa vez foi obrigado a discordar. O que estava sentindo ao ver aquela cena era muito próximo a todos os outros sentimentos das últimas semanas. Da vontade que tinha de rir, cantar, dançar, brincar, de olhar as estrelas, de ficar jogado no sofá com a cachorrinha, de escutar música, de dormir mais tarde e acordar mais cedo para escutar os passarinhos, da vontade de dar bom dia, boa tarde e boa noite.

Extraordinário!

Era esse o nome daquele sentimento vasto.