O amor não morre nunca
04.09.2024
Chegou no velório da mãe de um amigo muito querido, o abraçou forte e soube que a causa da morte havia sido um AVC. Tudo aconteceu rápido. Lembrou da própria mãe que aos 67 anos também havia sofrido um AVC e que ficou 17 anos na cama. Longos 17 anos. A mãe do amigo tinha 94 e o marido, 99. Estavam juntos há 30 anos. Sentiu um aperto no peito quando imaginou a dor que ele deveria estar sentindo. O que fazer aos 99 anos, depois de 30 anos de convivência? De amor? De companheirismo? Como seguir vivendo? Qual o motivo para seguir vivendo?
Abraçou o amigo, deixou o velório e as perguntas o acompanharam. Foi fazer lentes novas para os óculos e voltou caminhando para casa. Como aquele senhor seguiria vivendo?
Quando percebeu, estava na mesma rua onde havia feito uma foto meses atrás, de uma árvore linda, vestida a rigor pelo outono e pensou em fazer a foto novamente. Como ela estaria, passado este tempo? Quando a avistou, ela estava seca, sem nenhuma folha. O inverno havia cumprido sua parte, mas ela continuava uma beleza. Lembrou do que havia escrito. Era sobre aproveitar o dia, o hoje, o agora. Era sobre a brevidade da vida. Era sobre desacelerar e perceber as coisas à sua volta. Era sobre estar vivo.
Fez a foto tentando manter o mesmo enquadramento e pensou sobre o amor daquele casal nonagenário, pensou no fim de um ciclo na vida daquele senhor, lembrou dos próprios ciclos, dos próprios fins, lembrou do amor que sente. Sentiu o amor que sente. Nos fones de ouvido, enquanto escrevia aquelas linhas, a música, sempre ela, dizia o seguinte:
“Não somos mais que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só na idade do céu
Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo com a idade do céu
Calma, tudo está em calma
Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade que a idade do céu”
Pensou novamente naquela história de amor e entendeu que ela seguiria, apesar da mãe do seu amigo não estar mais presente. Esse era o ensinamento: o amor não morre nunca.


