O dia ficou noite, o sol foi pro além
10.09.2024
O hábito de rolar a tela para atualizar o feed nas redes sociais começava a causar medo. As notícias sobre os efeitos climáticos se multiplicavam de norte a sul no país e no mundo. Foi dormir com aquela sensação estranha de, infelizmente, estar vivendo o fim do mundo.
Acordou cedo. A rotina boa de tomar café escutando música, curtir a cachorra pedindo pedacinhos de pão, olhar o dia nascendo e o azul do céu pela janela de sua sala, não combinavam com aquele sol alaranjado e totalmente coberto por nuvens. Nuvens que, segundo aquelas notícias que não paravam de circular, eram a fumaça de um país que estava queimando. Literalmente.
O sentimento de impotência tomou conta dele. Pensou no tempo que ainda teria de vida por essas bandas. Talvez uns 30 anos? Como seriam? Olhou para a cachorrinha, deu mais um pedacinho de pão e tomou mais um pouco de café.
Buscou no celular a música que, mais uma vez, e sempre, dava conta daquele momento. Eram os anos 80, festival MPB, e o deboche de Eduardo Dusek cantando Nostradamus nos fazia rir na época. Fim do mundo? Certamente era um louco.
Tentou de alguma forma tornar aquele dia mais leve. Preparou a cachorra para passear e pensou que talvez não houvesse mesmo uma saída para aquilo tudo. Olhou nos olhos do bichinho, deu um beijo demorado na sua fuça, e saíram a passear enquanto Dusek seguia com sua premonição nos ouvidos dele:
“O dia ficou noite, o sol foi pro além
Eu preciso de alguém, vou até à cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei
Levanta e serve um café que o mundo acabou!”
* A foto é da janela da minha sala feita hoje pela manhã cedo, dia 10.09.2024


