Quando um teatro fecha, não é só a cortina que não abre
28.04.2026
Compartilhe e assisti ao relato da equipe do espetáculo Oceânica que celebraria os 50 anos da trajetória da coreógrafa Anette Lubisco, com produção da Casa Salto. O espetáculo foi cancelado no dia da estreia no Teatro Renascença. (24/05/2026)
E o que me ficou não foi a imagem da água no palco. Foi a dimensão do que não aconteceu.
Eram oito meses de trabalho, mais de vinte pessoas envolvidas. Cenário montado, ensaios, reuniões, investimento feito.
Tudo pronto.
E, ainda assim, não aconteceu.
A gente costuma falar de cultura como programação, como agenda, como evento.
Mas cultura também é trabalho.
É cadeia produtiva.
É economia.
Quando um espaço cultural falha, não é só uma apresentação que se perde.
É uma sequência inteira de trabalho que se rompe.
Artistas, técnicos, produção, fornecedores.
Tempo, dinheiro, energia.
Tudo interrompido.
E aí fica uma pergunta simples, mas necessária: quem responde por isso?
Ainda mais quando estamos falando de um teatro que passou por uma reforma recente, com alto investimento. Uma obra realizada como contrapartida de um empreendimento privado, o que é um mecanismo legítimo, mas que exige ainda mais rigor na execução e na fiscalização pública.
E talvez o ponto mais amplo seja esse: não é um caso isolado. Outros espaços culturais de Porto Alegre também vêm enfrentando fechamentos, limitações, redução de atividades.
Isso não atinge só uma linguagem.
Atinge a cultura como um todo e o público que perde acesso, convivência, experiência.
Não é só sobre quem produz.
É sobre quem vive a cidade.
Não é sobre público ou privado.
É sobre responsabilidade.
Porque, no fim, quem sofre não é uma ideia abstrata de cultura. São pessoas. São os artistas, as equipes e o público.
Cuidar da cidade também é cuidar disso.
Cultura não é acessório.
É trabalho, é economia, é vida.
E precisa ser tratada como tal.
Meu apoio a toda a equipe do espetáculo.


