Tique-taque, tremor das pequenas coisas

Tique-taque, tremor das pequenas coisas | 2004
Exposição Galeria Iberê Camargo, 2004
Vídeo feito em 2004

Outros espaços onde a exposição foi apresentada
Exposição MALG, Pelotas, 2004
Exposição Galeria Casa Cultura Percy Vargas, Caxias do Sul, 2004
Paisagens Sonoras, 3º Inverno Cultural da UFSJ, 2010

Segurar um passarinho
na concha meio fechada da mão é terrível,
é como se tivéssemos os instantes trêmulos na mão.
(Clarice Lispector)

Leandro Selister nos mostra o movimento das coisas de dentro da casa. Determina cortes precisos. Fixa instantes para apertar o botão e congelar cada cena. Quebra a seqüência natural do tempo. O que acontece entre um minuto e outro, um segundo e outro, é o mistério da vida encerrado talvez nas frações imperceptíveis de uma outra dimensão de tempo que não percebemos. Não se trata aqui da representação real em 24 quadros por segundo. O fotógrafo cria a seqüência de instantes conforme um ritmo particular, seu modo de perceber a natureza em constante transformação. De dentro da casa, Leandro Selister torna-se uma espécie de guardião do tempo, vigia cada movimento do mundo como um voyeur atento e cuidadoso.

Em frente a sua janela, um sabiá insiste em construir seu ninho sobre um pedaço de calha de alumínio. Para não ser percebido, durante quase três meses o fotógrafo registra as peripécias do passarinho através de uma pequena abertura improvisada entre papéis colados sobre as vidraças. Mas a calha, dura e lisa, não prende direito os galhos e o ninho incipiente cai e se desfaz muitas vezes. Movido pela força da vida e da esperança, o bichinho, como num trabalho de Sísifo, reconstrói árdua e inutilmente sua morada até que os vizinhos colocam um arame para que os galhos fiquem presos à calha. O pássaro pode finalmente chocar seus ovos com segurança. A chegada dos filhotes é esperada com entusiasmo. Aos poucos, três bicos quase imperceptíveis surgem do ninho para receber o alimento e descobrir a luz. Ao cabo de alguns dias, apenas um dos recém-nascidos sobrevive.

Como medir no tique-taque do relógio a pulsação do corpo, matéria elástica, fragilidade do instante que nos liga à vida?(…)

Teresa Poester, artista plástica, Janeiro/2004

Ainda no ano de 2004, é lançado pela Escritos Editora de Porto Alegre, o livro Tique-taque, tremor das pequenas coisas. Em 2014 é lançada a segunda edição com o texto traduzido para o espanhol e inglês pela mesma editora.